DEPRESSÃO, DISTÚRBIOS ALIMENTARES E OVERTRAINING: MINHA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Ok. Confesso que estou há meses querendo escrever sobre este assunto, na verdade desde Setembro de 2017 quando publiquei meu último post aqui no Blog. Tem sido uma luta interna trazer isto à tona pois sei que com ele muitos sentimentos e lembranças ruins virão. Talvez a minha história seja apenas mais uma de tantas que já se ouviu falar, mas esta é A MINHA HISTÓRIA. 

Quando decidi competir no Fitness (depois de ter me mudado para os Estados Unidos) não conhecia nada sobre este mundo do Bodybuilding. Fui nadadora a vida inteira, desde os meus 4 anos de idade até os 32 na piscina, e aos 34 decidi subir nos palcos e competir no Fitness. Bem, minha história inteira renderia ALGUNS POSTS, tenho muita coisa pra contar até que tudo faça sentido. Quem sabe não vou escrevendo aos poucos, mas agora vamos direto ao assunto. 

Foram duas competições pela WBFF Diva Fitness Model: uma amadora em 2015, na qual venci e conquistei o meu "Pro Card", e outra em 2016 que foi o Mundial. A categoria que competi é uma categoria que fica entre "Bikini" e "Figure", precisa ter um corpo "talhado" mas sem exageros, e ao mesmo tempo feminino. Precisava saber desfilar igual uma Angel da Victoria's Secret, mesmo eu me sentindo um pouco desengonçada no início. Tive que aprender sobre tudo isso, era um mundo completamente novo pra quem sempre esteve competindo de maiô, touca e óculos. Logo após receber a coroa de campeã mundial Fitness em 2016 meu mundo começou a desabar. 

Campeã Mundial Fitness 2016 - Toronto, Canadá. 

Campeã Mundial Fitness 2016 - Toronto, Canadá. 

 

Eu não fui pra perder. Como atleta olímpica que sou, quando coloco algo "em jogo", eu vou pra ganhar. É claro que vencer é sempre bom, é a coroação de todo esforço e dedicação de todos que fizeram parte do processo, ninguém vence sozinho, lógico. Mas a minha vitória pessoal é comigo mesma. Logo após descer do palco eu já tinha uma bandeja de brigadeiros esperando por mim, eu mesma tinha "me dado de presente". Pobre de mim, mal sabia que aquilo seria o começo do fim. 

Após a vitória, no quarto do hotel. 

Após a vitória, no quarto do hotel. 

 

Como leiga no assunto, eu não fazia ideia do que estava causando no meu organismo. Depois de meses em preparação, alimentação extremamente restrita, com o organismo debilitado pela falta de nutrientes e cansada dos treinos, eu deveria ter recebido algum tipo de instrução para o pós competição, que eu não tive. O que eu ouvi foi "coma de tudo, mas coma pouco". Algo difícil de entender quando eu estava há meses me privando de tudo que eu gostava para vencer aquela competição. Não consegui. Eu simplesmente comecei a comer como se não houvesse amanhã. Devido aos meses de dieta EXTREMAMENTE restritiva, meu corpo entrou em um "estado de sobrevivência" e quis estocar tudo que cabia e não cabia mais dentro do meu estômago, como se meu cérebro entendesse que aquele momento de poder comer iria acabar assim que começasse uma nova preparação: ou seja, passar fome!! Porém, eu mal sabia que nunca mais iria pisar num palco. E eu comi sem parar, eu não sei até hoje como entrou tanta comida em mim, meu marido ficava atônito. Comia kilos de chocolate como sobremesa após devorar uma pizza inteira. Lembro de uma dia ter dito que não aguentava mais comer mas não conseguia parar, e a orientação que tive foi: "toma uma Coca Zero pra arrotar". 

Sem conseguir parar de comer, fui me afundando na depressão. Meu corpo "perfeito e vencedor" estava "gordo e deformado", e era na comida que eu encontrava prazer, a tal da endorfina. Comia, me sentia bem por poucos minutos, e depois vinha a culpa. Aí passei a vomitar, porque não queria engordar ainda mais. Não era algo forçado, era alguma reação instantânea que não deixava mais a comida da minha boca passar pro meu estômago. Como se tivesse uma porta sempre fechada, e se não entrasse, tinha que sair. Isso passou a ser constante, e minha frustração e fraqueza física só aumentavam. 

Pós competição, já em depressão. 

Pós competição, já em depressão. 

Eu demorei pra assimilar tudo isso. A preparação para a competição não é nada fácil. No dia do palco eu estava com 10kg a menos do meu "peso normal". Dá pra ter uma ideia nas fotos abaixo, lipodistrófica, porém era necessário chegar nesse padrão para o dia da competição, pois em cima do palco, sob os holofotes, "tudo aumenta." Nas fotos de palco que eu pareço forte e saudável, mas fora dele, eu estava cadavérica. Chega num determinado momento algumas semanas antes da competição que a energia acaba, os treinos de musculação não rendem, mas você deve seguir em frente, não faltar a nenhum deles, nem tampouco deixar de fazer as 2h de cardio diárias. O cérebro fica debilitado, o raciocínio falha. Eu não conseguia ter um diálogo, não falava coisa com coisa, esquecia as palavras. Da competição lembro muito pouco, eu só rezava pra não cair do salto, que era altíssimo. Lembro apenas do momento final onde com a coroa na cabeça encontrei uma amiga, a Alex, no corredor do backstage e com ela chorei de alegria pela conquista. Ela foi a minha mentora, a responsável pelo meu bikini e fantasia, por definir como seria meu cabelo e makeup, quem me ensinou a desfilar e posar em frente as câmeras e juízes, enfim. Vocês já viram um peixe andando? Essa era eu aprendendo a desfilar... e foram 8 meses de treino de desfile e pose TODOS OS DIAS. Eu sou eternamente grata por tudo que ela fez por mim. (OBRIGADA, ALEX!) 

Uma dia antes de subir no palco, após o tanning. 

Uma dia antes de subir no palco, após o tanning. 

Momento da makeup no dia da competição, lipodistrófica. 

Momento da makeup no dia da competição, lipodistrófica. 

No palco sob os holofotes. 

No palco sob os holofotes. 

 

Logo após a competição, meu mundo pessoal ruiu. Foi também logo após os Jogos Olímpicos do Rio 2016 onde meu marido (nadador) foi novamente finalista olímpico (já havia sido em 2012), mas novamente não conquistou a medalha. (foi 4º lugar em Londres 2012 e 6º em 2016 sempre a poucos centésimos do pódio). Era um TUDO E NADA que estávamos vivendo. Ele perdeu quase todos os patrocínios depois do Rio. E sendo assim, o meu sonho de continuar competindo no Fitness também estava ruindo, pois é uma competição que custa MUITO caro e que não me trouxe retorno NENHUM. Não haveria mais jeito de arcar com passagens aéreas, hotel, bikini, fantasia, aulas de desfile e posing, makeup, cabelo, tanning, fotos, etc. 

Quanto mais eu comia pra afagar essa onda de sentimentos misturados de preocupações e medo do futuro, mais eu queria comer. A comida era o meu refúgio, era a única coisa que me dava prazer naquele momento. Meus 10kg que perdi pra competir eu recuperei em 1 semana. Vocês conseguem imaginar o colapso que foi pro meu organismo? Mas, "toma uma Coca Zero e arrota", certo? Errado!

O sentimento de culpa bateu, e eu quis voar pra academia. Comecei a querer treinar insana, fazer de novo 2h de cardio por dia pra voltar a forma física que já tinha ido por água abaixo, e eu "quebrei". Não consegui mais sair da cama. OVERTRAINING, ou melhor GAME OVER pra mim. Fiz exames de sangue que me mostraram que eu estava com a saúde de uma pessoa doente. Vocês tem noção disso? Minha perna falhava ao ponto de eu não me sustentar e cair no chão, não dormia, tinha insônia, só chorava, vomitava. E COMIA! Eu tava dentro de um pesadelo, e ele parecia não ter fim. Lembro de estar falando com uma amiga (MUITO MAIS DO QUE AMIGA!) que é psicóloga, e eu dizia: "eu não limpo o meu banheiro há dias, minha casa está um caos de bagunça e sujeira, mas eu não tenho forças e nem vontade de sair da cama". Ela me disse bem assim: "Vamos fazer o seguinte, vamos cumprir uma tarefa: uma por dia. Hoje você precisa limpar o banheiro. Você tem 15 minutos, vou ligar do volta pra saber se conseguiu cumprir". Eu sou movida a desafios. Me deram uma tarefa e eu TINHA que executar, era questão de honra. Não sei como, sei que eu fiz isso chorando, mas eu fiz: limpei o banheiro em 15 minutos e cumpri minha tarefa. Daquele dia em diante eu resolvi lutar, "uma pequena tarefa por dia" pois não queria ficar daquele jeito. (Rita, eu TE AMO, se estiver lendo isso, minha eterna gratidão!)

Foi quando decidi assumir as rédeas da minha vida novamente. Passei a estudar, queria me tornar Health Coach pra entender o que tinha acontecido comigo, e quando fui aprendendo passei a cuidar da minha mãe, que estava com síndrome metabólica, pré-diabética com os triglicerídeos estourados. Por mais saudável que eu sempre tenha sido pelo fato de ser atleta, percebi que não sabemos e não temos conhecimento sobre tudo. Tive que aprender muito sobre o que é uma alimentação "limpa" de verdade, e notei que minha mãe tinha hábitos muito ruins, além de ter se tornado sedentária. Eu determinei uma condição pra ela, disse: "Mãe, eu não vou poder cuidar de ti à distância se algo te acontecer (ela mora no Brasil e eu nos EUA). Me escuta, deixa eu te cuidar." Ela me ouviu e aceitou mudar seus hábitos alimentares, passou a se exercitar, uma simples caminhada diária que mudou muita coisa. Em poucos meses ela eliminou 12kg, regulou todos os exames de sangue, parou de sentir dores de artrite e artrose que a atormentavam saindo da zona de risco de ter diabetes e doenças cardiovasculares como um ataque cardíaco e um AVC, por exemplo. Ufa, ela me ouviu! Hoje é só sorrisos com uma qualidade de vida que nunca havia tido. Depois da minha mãe, descobri que queria ajudar outras pessoas, criando minha própria empresa de consultoria. Muito mais do que trazer a boa forma, minha intenção é trazer saúde e qualidade de vida pra todos que me procuram. Me desliguei do meu antigo coach, entendi através dos estudos tudo o que passei (e que não precisava ter passado caso tivesse recebido instrução adequada), e virei a página. 

Às vezes sentimos que nosso mundo vai desabar, que não temos forças pra mudar aquilo que gostaríamos, mas temos sim. Pequenas mudanças geram grandes impactos, é só não se acomodar. Precisamos encontrar nos hábitos a nossa paz, mas isso é assunto pra um próximo post.

Até breve e sejam saudáveis.

"BE HAPPY. BE HEALTHY!"